Crónica Público
Alentejo mais pobre: porquê? Autor: Carlos A. Cupeto, Geólogo, professor na Universidade de Évora Artigo publicado no Público, em 14 de janeiro de 2026
1/15/2026


Alentejo mais pobre: porquê?
Carlos A. Cupeto
Geólogo, professor na Universidade de Évora
Artigo publicado no Público, em 14 de janeiro de 2026
Os dados são claros e inquietantes. Segundo o estudo Portugal desigual, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, atualizado com base no último Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgado a 11 de dezembro, o Alentejo passou a ser, em 2024, a região mais pobre do país. A taxa de risco de pobreza subiu quase 2,5 pontos percentuais num só ano, de 15,6% em 2023 para 17,9% em 2024, ultrapassando a dos Açores.
O paradoxo é evidente: a nível nacional, a pobreza atingiu o valor mais baixo desde 1994. Não há respostas fáceis, nem únicas. Há causas estruturais, históricas, naturais e políticas que se acumulam.
Desde logo, o território conta. No Minho chove três vezes mais do que no Alentejo; os solos são mais férteis. Onde há vacas no Minho, há borregos e cabras no Alentejo. No geral, o Norte dispõe de mais recursos naturais favoráveis e isso reflete-se na riqueza criada. Mas reduzir a explicação à geografia seria cómodo e insuficiente.
O Alentejo possui recursos estratégicos incontornáveis, nomeadamente recursos minerais e geológicos, indispensáveis à vida e aos enormes desafios do presente, designadamente à transição energética e ao bem-estar social. Contudo, estes recursos continuam largamente estigmatizados e bloqueados por uma mistura de hipocrisia e manipulação ideológica que impede o seu aproveitamento responsável. Exemplos não faltam: o ouro no Escoural, muito próximo de Évora, ou a promissora mina da Lagoa Salgada, em Grândola. Ao contrário de um parque solar ou de uma plantação florestal, estes recursos estão onde estão, não podem ser deslocados. Ignorá-los é apostar na pobreza.
O Alentejo abandonou-se, ficou cada vez mais vazio, sem capital humano, deixou passar inúmeras oportunidades. Há nesta terra uma enorme matriz cultural de fatalismo que a conduz inevitavelmente à pobreza. Enraizou-se a cultura do protesto, cultivada por inequívocos interesses ideológicos, que leva sempre à “responsabilidade externa”; normalmente, o Terreiro do Paço ou o capitalismo que, supostamente, espreita em cada esquina, sem esquecer a pesada herança de “49 anos” que continua a ser considerada e alimentada. Queira-se ou não, só não vê quem não quer, ou não pode, o peso ideológico continua a ser controlador, determinante e decisório. Num país onde o Estado predomina, no Alentejo com fraquíssimo tecido empresarial, este absurdo é a suposta boia de salvação, a tudo o Estado acode ineficazmente e não faz o deve, assim se alimenta o ciclo da pobreza e do protesto.
Todavia, a uma região como o Alentejo, muitas vezes só resta mesmo o Estado, cada vez mais depauperado e incapaz; a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, quando comparada com outras regiões, é um excelente exemplo da progressiva incapacidade de localmente apoiar a criação de riqueza, os resultados mostram-no. Os pequenos palcos da administração pública local e regional não mais servem do que alimentar a paupérrima política local.
O que falta, então, ao Alentejo? Falta, desde logo, uma mudança de atitude coletiva: menos fatalismo e mais responsabilidade territorial. Falta coragem política para assumir que os recursos existem e devem ser usados com inteligência, rigor ambiental e retorno local. Falta capacidade de transformar investimento público em desenvolvimento económico enraizado no território. Falta qualificar as escolhas, discutir, sem dogmas, o papel do Estado, da iniciativa privada e da comunidade, e perceber quem cria riqueza, quem a captura e quem e como a regula.
Queremos continuar a gerir a pobreza ou começar, finalmente, a criar condições para a superar? Queremos um Alentejo musealizado e dependente, ou um território vivo, produtivo e socialmente justo? As respostas não virão de Lisboa nem de Bruxelas: terão de ser encontradas no Alentejo, do território, das pessoas e de uma visão que coloque o Alentejo no centro do seu próprio futuro.
